Ora hoje decidi ir fazer umas
compras e deparei-me com o mesmo problema de sempre: tamanhos.
Na
minha luta diária como feminista várias vezes me questiono do porquê de as
pessoas falarem com tanto ódio dos corpos umas das outras, com tanta
arrogância, desinformação e comentários desnecessários. Quem vos pediu para
comentar e avaliar o corpo de outra pessoa?
A gordofobia é um assunto real e grave.
Vivemos num mundo que dá demasiada importância à aparência, quer resultados
imediatos a partir de cirurgias estéticas, querem um corpo perfeito e magro acima de tudo o resto e não há nada de mal em quererem mas neste
momento quase que é regra geral e já não se trata de uma decisão pessoal, por
este motivo é que para além de combater a gordofobia temos de combater a
importância exagerada que dão à aparência.
Em
primeiro lugar é preciso perceber que existem pessoas gordas e que têm tanto
direito de viver neste mundo como as magras, ou seja, acessibilidade e espaços públicos
que aceitem a diversidade de corpos que as pessoas têm.
Em
segundo lugar vamos lá acabar com a ideia de que o tamanho do corpo de uma
pessoa determina o quão saudável ela é. Não determina isso nem o seu carater
nem o quão preguiçosa ou asseada ela é.
Em
terceiro lugar entender que nem todos queremos ser saudáveis ou queremos saber
disso, independentemente de ser gordo ou não. Não é suposto combaterem o
discurso dos gordofóbicos ao dizerem “sou gorda mas as minhas análises estão
boas!”. Há quem seja saudável, há quem não seja, o importante é existir
respeito por todos e não exigirmos que as pessoas tenham um determinado tipo de
corpo.
Se
X pessoa quiser emagrecer, modificar o seu corpo ou whatever tudo ótimo!
Feminismo é sobre isso mesmo, liberdade. Mas o facto de serem magros não faz
com que sejam melhores do que quem não quer emagrecer independentemente de se
sentirem bem ou não com o seu corpo.
E
não vamos só ignorar que no meio do discurso do “tens de ter cuidado com a saúde”
“não és saudável assim” existe aquela vozinha que sussurra “ ser gordo é
anormal” “ser gordo é negativo” a gordofobia vai muito além do físico.
Ser
mulher gorda é outro assunto ainda,
apesar de todos os gordos sofrerem de preconceito as mulheres são sempre as
mais afetadas nos tópicos de estética.
Eu
não sei bem em que categoria o meu corpo se encaixa, sou definitivamente mais
volumosa que a grande maioria das raparigas da minha idade, ouço sempre o típico
“estás mais cheiinha” “engordaste?” “se continuares assim quando fores mais
velha nem quero ver” “andas desleixada” já me deixei abalar por criticas assim, hoje
em dia apesar de não me sentir 100% confortável com o meu corpo sou resistente
e luto contra este tipo de situações porque acredito que posso ser como eu
quiser e que isso só a mim me diz respeito.
Além
disso gorda não é sinonimo de curvas. Os corpos das mulheres gordas são tão
diversos como os das magras e precisamos de celebrar mais essa diversidade.
As
vozes que surgem para humilhar a mulher gorda ao dizer que ela não se cuida,
que é desleixada, que come tudo, não conseguem perceber a dor que vivemos na
nossa realidade, e quando finalmente lutamos contra isso somos gozadas “não
sabes aceitar uma brincadeira” . Mundo fodido, não é?
Entre
as pessoas com distúrbios alimentares, as mulheres ocupam a maioria. Estar bem
consigo mesma e sentir-se bem no seu corpo é um luta difícil e diária contra
uma sociedade machista que prende a nossa felicidade aos padrões de beleza
existentes.
E era aqui que queria chegar com tudo isto: lutar contra a
gordofobia significa lutar contra esses mesmos padrões que a sociedade nos impõe
de forma a vivermos com dignidade e respeito. Contra os lugares muito
apertados, contra as roupas com tamanhos
restritos e fora de moda, contra os olhares, contra as preocupações de
maridos e filhos que nem temos, contra frases do género “ essa mulher deve
estar com esse gordo por dinheiro com certeza”
Quando
a nossa sociedade diz que apenas corpos brancos, magros, depilados, com cabelo
liso, jovens, maquilhados, e o caralho mais o recado é super claro: ou te
encaixas ou és posto de lado.
Não
seguir estas regras faz parte da nossa revolução!
Aprender a não exigir que as outras pessoas sigam essas mesmas regras, o
feminismo é sobre igualdade, sobre liberdade! Quem quiser ser magro é, quem
quiser usar maquilhagem usa, quem quiser ter pelo tem, quem não quiser ter cabelo
não tem.
A
beleza pode ser muito mais do que a que nos foi ensinada e precisamos de parar
de usar atributos físicos como insultos/elogios. Gorda não é um insulto e magra
não é um elogio. Não vale a pena dentro da luta pelo empoderamento do corpo
gordo dizer merdas tipo “ homem não gosta de osso, quer é carne”
A
nossa luta não é para ver quem é a mais bonita da rua mas sim para sermos todas
bonitas e aprender a ver a beleza que há em nós. Precisamos de estar unidas,
não somos inimigas umas das outras. Não precisamos de colocar uma mulher numa
posição inferior à nossa para nos sentirmos melhores!
O
processo de deixar de odiar o nosso corpo/passar a amar não é fácil muito menos
para quem é gordo porque desde sempre fomos ensinados a rejeitar os nossos
corpos.
E
como é evidente não posso deixar de relembrar que a gordofobia não afeta
somente as mulheres como é lógico. O privilegio dos homens (que pode ser adicionado
ao privilegio da cor, classe, orientação sexual e religião) faz com que imensas
vezes a gordofobia seja “ignorada” nestes casos mas isso não faz com que seja
uma exclusividade feminina. As mulheres sofrem mais pressão em relação à aparência
mas no que toca a considerar um corpo gordo como doente, de excluir pessoas
gordas de aparelhos públicos, não existirem roupas adequadas, dignidade no
geral então aí estamos todos no mesmo barco.
O
feminismo luta por todos.