terça-feira, 26 de setembro de 2017

Gordofobia


            Ora hoje decidi ir fazer umas compras e deparei-me com o mesmo problema de sempre: tamanhos.

Na minha luta diária como feminista várias vezes me questiono do porquê de as pessoas falarem com tanto ódio dos corpos umas das outras, com tanta arrogância, desinformação e comentários desnecessários. Quem vos pediu para comentar e avaliar o corpo de outra pessoa?

A gordofobia é um assunto real e grave. Vivemos num mundo que dá demasiada importância à aparência, quer resultados imediatos a partir de cirurgias estéticas, querem um corpo perfeito e magro acima de tudo o resto e não há nada de mal em quererem mas neste momento quase que é regra geral e já não se trata de uma decisão pessoal, por este motivo é que para além de combater a gordofobia temos de combater a importância exagerada que dão à aparência.

Em primeiro lugar é preciso perceber que existem pessoas gordas e que têm tanto direito de viver neste mundo como as magras, ou seja, acessibilidade e espaços públicos que aceitem a diversidade de corpos que as pessoas têm.

Em segundo lugar vamos lá acabar com a ideia de que o tamanho do corpo de uma pessoa determina o quão saudável ela é. Não determina isso nem o seu carater nem o quão preguiçosa ou asseada ela é.

Em terceiro lugar entender que nem todos queremos ser saudáveis ou queremos saber disso, independentemente de ser gordo ou não. Não é suposto combaterem o discurso dos gordofóbicos ao dizerem “sou gorda mas as minhas análises estão boas!”. Há quem seja saudável, há quem não seja, o importante é existir respeito por todos e não exigirmos que as pessoas tenham um determinado tipo de corpo.

Se X pessoa quiser emagrecer, modificar o seu corpo ou whatever tudo ótimo! Feminismo é sobre isso mesmo, liberdade. Mas o facto de serem magros não faz com que sejam melhores do que quem não quer emagrecer independentemente de se sentirem bem ou não com o seu corpo.

E não vamos só ignorar que no meio do discurso do “tens de ter cuidado com a saúde” “não és saudável assim” existe aquela vozinha que sussurra “ ser gordo é anormal” “ser gordo é negativo” a gordofobia vai muito além do físico.

Ser mulher gorda é outro assunto ainda, apesar de todos os gordos sofrerem de preconceito as mulheres são sempre as mais afetadas nos tópicos de estética.

Eu não sei bem em que categoria o meu corpo se encaixa, sou definitivamente mais volumosa que a grande maioria das raparigas da minha idade, ouço sempre o típico “estás mais cheiinha” “engordaste?” “se continuares assim quando fores mais velha nem quero ver” “andas desleixada”   já me deixei abalar por criticas assim, hoje em dia apesar de não me sentir 100% confortável com o meu corpo sou resistente e luto contra este tipo de situações porque acredito que posso ser como eu quiser e que isso só a mim me diz respeito.

Além disso gorda não é sinonimo de curvas. Os corpos das mulheres gordas são tão diversos como os das magras e precisamos de celebrar mais essa diversidade.

As vozes que surgem para humilhar a mulher gorda ao dizer que ela não se cuida, que é desleixada, que come tudo, não conseguem perceber a dor que vivemos na nossa realidade, e quando finalmente lutamos contra isso somos gozadas “não sabes aceitar uma brincadeira” . Mundo fodido, não é?  

Entre as pessoas com distúrbios alimentares, as mulheres ocupam a maioria. Estar bem consigo mesma e sentir-se bem no seu corpo é um luta difícil e diária contra uma sociedade machista que prende a nossa felicidade aos padrões de beleza existentes.

E era aqui que queria chegar com tudo isto: lutar contra a gordofobia significa lutar contra esses mesmos padrões que a sociedade nos impõe de forma a vivermos com dignidade e respeito. Contra os lugares muito apertados, contra as roupas com tamanhos restritos e fora de moda, contra os olhares, contra as preocupações de maridos e filhos que nem temos, contra frases do género “ essa mulher deve estar com esse gordo por dinheiro com certeza”

Quando a nossa sociedade diz que apenas corpos brancos, magros, depilados, com cabelo liso, jovens, maquilhados, e o caralho mais o recado é super claro: ou te encaixas ou és posto de lado.

Não seguir estas regras faz parte da nossa revolução! Aprender a não exigir que as outras pessoas sigam essas mesmas regras, o feminismo é sobre igualdade, sobre liberdade! Quem quiser ser magro é, quem quiser usar maquilhagem usa, quem quiser ter pelo tem, quem não quiser ter cabelo não tem.

A beleza pode ser muito mais do que a que nos foi ensinada e precisamos de parar de usar atributos físicos como insultos/elogios. Gorda não é um insulto e magra não é um elogio. Não vale a pena dentro da luta pelo empoderamento do corpo gordo dizer merdas tipo “ homem não gosta de osso, quer é carne”

A nossa luta não é para ver quem é a mais bonita da rua mas sim para sermos todas bonitas e aprender a ver a beleza que há em nós. Precisamos de estar unidas, não somos inimigas umas das outras. Não precisamos de colocar uma mulher numa posição inferior à nossa para nos sentirmos melhores!

O processo de deixar de odiar o nosso corpo/passar a amar não é fácil muito menos para quem é gordo porque desde sempre fomos ensinados a rejeitar os nossos corpos.

E como é evidente não posso deixar de relembrar que a gordofobia não afeta somente as mulheres como é lógico. O privilegio dos homens (que pode ser adicionado ao privilegio da cor, classe, orientação sexual e religião) faz com que imensas vezes a gordofobia seja “ignorada” nestes casos mas isso não faz com que seja uma exclusividade feminina. As mulheres sofrem mais pressão em relação à aparência mas no que toca a considerar um corpo gordo como doente, de excluir pessoas gordas de aparelhos públicos, não existirem roupas adequadas, dignidade no geral então aí estamos todos no mesmo barco.

O feminismo luta por todos.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Porque é que sou feminista



fe·mi·nis·mo
(francês féminisme)
Movimento ideológico que preconiza a ampliação legal dos direitos civis e políticos da mulher ou a igualdade dos direitos dela aos do homem.

                Sou feminista porque as raparigas até hoje são ensinadas nas escolas públicas que depois de terem relações sexuais pela primeira vez “perdem uma parte delas”.
                Sou feminista porque quando uma mulher tem relações com vários homens essa mesma é chamada de “puta” e “oferecida” enquanto os homens são vistos como “garanhões” pelo mesmo motivo.
Tiziana Cantone, Julia Rebeca, Tovonna Holton, Amanda Todd são exemplos de raparigas que tiraram a própria vida por conta do sexismo.
                Sou feminismo porque me disseram a mim e a todas as raparigas que quando tivéssemos a nossa primeira relação sexual ia ser horrível, doloroso, ia haver sangue por todo o lado.
                Sou feminista porque todos os dias milhares de mulheres e crianças são assediadas e as pessoas à volta continuam a perguntar o que é que ela estava a usar.
                Sou feminista porque os homens que são vitimas de violações não são levados a sério porque “homens querem sempre sexo” de qualquer das maneiras.
                Sou feminista porque piropos e assédio sexual não são elogios.
                Sou feminista porque quando uma mulher é assediada sexualmente duvidam de tudo o que ela diz e quando finalmente se prova que realmente aconteceu é insultada porque se aconteceu foi ela que provocou.
                Sou feminista porque quando falo em igualdade ainda existem pessoas que se riem e viram a cara.
                Sou feminista porque ainda existem debates sobre se devemos ou não amamentar em publico.
                Sou feminista porque fazer a depilação é opcional para os homens, mas obrigatório para as mulheres.
                Sou feminista por causa de pressão que a sociedade coloca nas mulheres desde que são crianças para valorizarem a aparência antes de tudo o resto.
                Sou feminista porque existem culturas que consideram normal cortar parte do pénis de um bebe ou da vagina de uma bebe.
                Sou feminista porque 80% das figuras politicas são homens e são eles que decidem o que fazer com o MEU corpo.
                Sou feminista porque os homens dominam todas as industrias.
                Sou feminista porque até hoje os homens recebem mais do que as mulheres a fazerem exatamente o mesmo trabalho com as mesmas qualificações (ou menores).
                Sou feminista porque quando tomo um papel de liderança seja no que for as pessoas a minha volta chama-me “mandona” mas quando um homem o faz ele está a fazer dele mesmo um “HOMEM”.
                Sou feminista porque me ensinaram que todas as outras mulheres são competição, e não de forma saudável como por exemplo para concorrer a um emprego, mas sim para competir pela atenção dos homens.
                Sou feminista porque existem gender roles. Porque tentam encaixar todo o mundo em duas caixinhas que são “coisas de menina” e “coisas de menino”
                Sou feminista porque chamar a um homem “menina” ou “conas” é dos piores insultos que lhe podem fazer, ser comparado a uma mulher. Porque por causa disso os homens têm medo de serem seres emocionais e de se abrirem sobre tudo o resto até no que toca a relações abusivas ou a doenças mentais.
                Sou feminista porque a maioria dos homens portugueses deixa a lida da casa para a mulher/mãe/irmã.
                Sou feminista porque ainda existem pessoas que dizem que só existem dois géneros.
                Sou feminista porque casamentos entre pessoas do mesmo sexo ainda é ilegal em muitas partes do mundo.
                Sou feminista porque em várias partes do mundo é LEGAL descriminar gays/lésbicas/transexuais
                Sou feminista porque só uma pequena parte dos filmes tem mulheres como personagem principal e ainda menos têm uma mulher de cor.
                Sou feminista porque o mundo deveria ser um lugar seguro para todos.
Sou feminista porque ainda existe uma alta percentagem de casamentos entre crianças pelo mundo fora e mesmo entre crianças e adultos.
Sou feminista porque grande parte da população acredita que uma mulher que se veste com roupas reveladoras merece ser violada.
                Sou feminista porque ainda existem lugares no mundo onde as mulheres não podem conduzir.
                Sou feminista porque quando eu berro/me revolto com a injustiça que existe pelo mundo fora sou mais “uma gaja com o período”
                Sou feminista porque como mulher a minha palavra é desvalorizada em relação à de um homem mesmo que ele esteja a dizer EXATAMENTE A MESMA COISA QUE EU.
                Sou feminista porque acredito na igualdade de todos os géneros.

Se concordares que:
·         As mulheres devem receber o mesmo valor que os homens ao realizar o mesmo trabalho com as mesmas qualificações.
·         As mulheres têm direito a votar
·         As mulheres devem ser as ÚNICAS responsáveis pela escolha da profissão que querem seguir.
·         As mulheres devem receber a mesma educação escolar que os homens.
·         Cuidar dos filhos é uma obrigação de ambos os pais e não só da mãe.
·         As mulheres devem ter autonomia para gerir e cuidar dos seus próprios bens
·         As mulheres é que devem escolher quando e se se tornarão mães.
·         As tarefas domesticas devem ser realizadas pelos moradores da casa e não pelas mulheres da casa.
·         As mulheres não devem ser espancadas ou mortas por não quererem continuar em x relacionamento
·         Que todos temos os mesmos direitos independentemente do género/cor/origem
Então tens todas as bases do pensamento feminista ainda que não seja assim tão breve quanto isto.
        Não se esqueçam que por não estar a acontecer à vossa frente não quer dizer que não esteja a acontecer noutra parte do mundo.
Não estou livre enquanto outra mulher for prisioneira ainda que as correntes dela sejam diferentes das minhas.
We stand together

Gordofobia

            Ora hoje decidi ir fazer umas compras e deparei-me com o mesmo problema de sempre: tamanhos . Na minha luta diária como ...